Adentrar no Raso da Catarina é viver uma experiência insólita.
Corpo, mente e alma demoram alguns dias para processarem a diferença.
Aparentemente a mais áspera das caatingas se apresenta como um aglomerado de árvores tortas, espinhudas e pouco amigáveis estabelecidas sem lógica por extensa área plana, de uma monotonia irritante.
Um calor causticante amolece o raciocínio dificultando uma estadia confortável. No Raso tudo é difícil, distante e seco. Cabe ao forasteiro a missão de interagir, buscar compreender as maravilhas adaptativas de plantas e animais e, aos poucos, se transformar em um ser mimético, que se desloca com cautela por um ambiente perigoso.
Até mesmo o Rei do Cangaço, Lampião, pensava duas vezes antes de atravessar o Raso. Só mesmo quando as volantes estavam no seu encalço. Naqueles tempos os "macacos" não sabiam o que era pior: desafiar a rispidez da caatinga crua do Raso da Catarina ou enfrentar a fúria dos cangaceiros.
É impossível entrar no raso e sair ileso. Um espinho que fura, um galho afiado que marca o rosto, a cansanção que queima, a sede e o calor impiedosos que minam a resistência. Verdadeira provação é estar no carrasco por volta do meio dia. Um silêncio sobrenatural se estabelece. Cessam os movimento e é possível ver o calor emergindo do solo seco.
Esse ritmo circadiano define os limites das atividades. Nesta hora tudo pára. É assustador ver o calor emergindo da areia.
David Santos Jr | Raso da Catarina
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