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Revista Photo & Camera - Novembro 2000


Águas e Movimento



Texto e Fotos: David Santos Júnior


Cachoeirão é um nome genérico dado a um paredão com cerca de 270 metros de altura que se localiza no final de um vale com o mesmo nome na Chapada Diamantina (BA). Para se chegar no pé do paredão, são quatro dias de caminhada e a última parada é na casa do Seu Eduardo.

Depois de uma noite de boa comida ao som de sanfona e triângulo, parti junto com a equipe do Araquém Alcântara para uma caminhada de duas horas e meia com muita ansiedade, pois não sabia se haveria água na cachoeira. É um risco que sempre vale a pena. Durante o caminho fui me envolvendo com a beleza exuberante da mata e deixando a ansiedade de lado para pensar só no agora, em como fazer para transportar todos estes sentimentos para a película fotográfica.

Achei o lugar e fotografei o Rio Cachoeirão.
Fiz a opção por uma variedade de cliques em baixa velocidade para aproveitar o que vi de interessante na cena: a espuma branca em movimento. Para tanto regulei a abertura em f/22, utilizei uma 28mm 2.8 com polarizador circular da Nikon e fotometrei no modo "matrix" da N90S, expondo Velvia rebaixado para ISO40. Combinando estes elementos obtive uma velocidade de 1/2 segundo, suficiente para o efeito desejado.

Chegando no pé da cachoeira fiquei impressionado com o lugar. É muito bonito, mas estava com pouca água, apenas duas ou três cachoeiras. Fiquei imaginando aquele paredão "pocado" (abarrotado na língua dos nativos) de cachoeiras e decidi fazer uma nova investida. Senti que o lugar merecia uma homengem do tamanho de sua fama. Depois de um mês voltei por outro caminho pouco utilizado.

Foi uma das visões mais belas que já tive na Chapada Diamantina. Fiz minha oração agradecendo por aquele momento. Senti que teria surpresas. Montamos acampamento e logo depois do jantar ouvimos um barulho enorme. Era a chuva chegando!!! Aquele ditado "Deus ajuda quem cedo madruga" estava começando a funcionar. Foi uma noite de horrores, muito vento, chuva, raio e trovão. Minha barraca aguentou firme - é fundamental para o fotógrafo da natureza estar preparado para este tipo de situação, não só para estar inteiro no dia seguinte, na hora do trabalho duro, mas também para garantir a integridade do equipamento fotográfico.

A recompensa veio com o amanhecer: sol!!! Quase não acreditei, peguei minha N90S com MB10, tripé, 28mm 2.8 com polarizador circular Nikon, Velvia rebaixado para ISO40 e parti para ver o espetáculo maravilhoso da natureza. Contei 22 cachoeiras espalhadas por todo o paredão, sendo algumas saindo de dentro da rocha.

O mais difícil foi me posicionar. O melhor ângulo era de baixo, mas para chegar até lá seriam dois dias de caminhada e se não chovesse,teria perdido a foto. Então resolvi procurar um local pelas laterais. Abrimos uma picada até chegar numa pontinha de pedra bem suspeita. Não hesitei, fui até o fim e, sem olhar para baixo, disperei com velocidade 1/8 segundo na mão com abertura f/16.

O lugar não permitiu a abertura do tripé. Nessas horas não se deve deixar a empolgação ultrapassar os limites da segurança. Depois de algumas horas, o nível de água baixou bastante e o número de cachoeiras também. Moral da estória: "estar no lugar desejado na hora certa". Câmera na mão e só esperar pelo presente.

NÃO DESPERDICE UMA BOA CHANCE
Nem sempre é necessário sofrimento para uma boa foto. Quando as condições são ideais eu não me assusto e aceito o presente sem questionar. Se a luz está perfeita, se estou com o equipamento apropriado, com filme e não precisei fazer muito esforço físico; que ótimo!

Talvez minha cota de pecados para pagar estava baixa neste dia. Porém, não pode haver vacilo e correr o risco de perder a foto por achar que está fácil demais. As fotos das Quedas do Rio Mosquito na Chapada Diamantina e da Cachoeira Casca d'Anta, Parque Nacional da Serra da Canastra, foram feitas em dias abençoados, quando tudo dá certo.

PROCURE LUGARES NOVOS
Um dia eu encontrei Rao, guia em Lençóis, e ele me falou de uma cachoeira com mais de 100m de altura pouco conhecida e nunca fotografada por um profissional. Fiquei entusiasmado e comecei a planejar a expedição. Fui para o Vale do Capão com o roteiro montado: primeiro dia Morrão, segundo dia Gerais Vieira e terceiro dia Capão-Lençóis, passando pela cachoeira do 21.

Na hora de fazer planos tudo é fácil, agora quando os 15kg de equipamentos começam a pesar, a estória muda. No terceiro dia eu já estava bastante cansado mas não desisti e parti junto com meu guia João do Capão para mais uma aventura. Subimos até o Gerais da Fumaça debaixo de uma fina garoa e depois, cadê a trilha? A neblina estava tão intensa que nos perdemos. Mas quando o guia é bom não há motivo para desepero. Mesmo estando no lajedo onde não há trilha certa e a orientação é feita mais pelo rumo das montanhas (estavam todas encobertas pela neblina), João foi na direção certa, quando o tempo melhorou, pude comprovar que estava bem acompanhado. Pegamos a batida e as dificuldades só aumentaram. Em alguns trechos a trilha acaba num precipício e o jeito é descer escorregando por troncos de árvores.

Passar pelos rios Verde e Branco também não foi tarefa fácil pois estava escorregando bastante. Depois de muito esforço chegamos no poço da Cachoeira do 21 e mais uma vez fui agraciado com aquele sol divino na hora certa. Armei o tripé com minha Nikon N90S com MB10 lente nikkor 28mm 2.8 na abertura f/22 com polarizador circular Nikon e disparei com velocidade recomendada pelo fotômetro no modo "matrix" com um enorme prazer. O filme utilizado foi Fujichrome Velvia rebaixado para ISO 40. É justamente este momento que estou dividindo agora com você através desta foto inédita!

CANYONING
O canyoning é um esporte de ação praticado em cachoeiras e uma fonte para grandes fotos. Para conseguir a foto do Zé Américo (Nativos da Chapada) fazendo canyoning na cachoeira do Mosquito (Lençóis - BA), planejei todas as etapas antes dele começar a descer.

Primeiro escolhi o ângulo: de frente. Para chegar no lugar desci de rapel um trecho do paredão até um platô. Lá, armei o tripé com a N90S com MB10, 70-210mm com polarizador circular, coloquei a abertura máxima da lente f/45 e velocidade 1/5 segundo. A fotometragem foi feita no modo "center-weighted". É uma situação peculiar pois o objeto principal deve estar congelado (atleta) e ao mesmo tempo a água formando um véu. Fiz também um "bracketing" com um ponto de velocidade acima e um abaixo da indicada pelo fotômetro, só para garantir.

CHEGUE ANTES DOS TURISTAS
Em locais muito visitados, uma boa foto pode ser comprometida pelas pessoas se banhando. Elas estão ali para curtir e não devem ser incomodadas. "Por favor saiam todos que EU quero fazer o meu trabalho!" Para que ser chato? É melhor acordar mais cedo e chegar antes dos turistas. Demorei 4 anos para fazer essa foto da cachoeira do Sossego (Lençóis - BA). Além dos turistas, outra dificuldade é o tempo nublado de manhã cedo. Neste dia acordei de madrugada e resolvi arriscar, peguei a trilha de 7,5km e depois de 2 horas estava na cachoeira.

O tempo fechou e ameaçou chover, mas, de repente, tudo mudou. O sol apareceu e eu me posicionei, só que estava cheio de nuvens. Então regulei a velocidade para 1/2 segundo, 28mm com abertura f/22 e polarizador circular e Velvia rebaixado para ISO 40. Cliquei entre uma nuvem e outra pegando o céu azul, a cachoeira com água e sem ninguém tomando banho. Logo depois chegou a primeira leva de turistas, me juntei a eles e tomei um bom banho para renovar as energias!

Na Cascata do Tiburtino (Mucugê - BA) montei o tripé discretamente afastado da cachoeira e fiquei esperando a oportunidade. Deixei a câmera regulada com velocidade de 1/2 segundo com a 70-210mm na abertura f/45 com polarizador circular e disparador MC20 na mão. Num determinado momento, todos saíram do quadro. Aí foi só disparar.



David Santos Jr | Photo & Camera - Águas e Movimeno

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