O padre observa o rio São Francisco. Trajes simples, semblante tranqüilo, achega-se à beira do cais da cidade de Barra esperando a aproximação do caiaque, como faz um grupo de estudantes curiosos. É tão discreto que nem parece o homem que recolocou no mapa do Brasil essa pacata - e outrora riquíssima -- cidade ribeirinha do sertão da Bahia. Ao pisar em terra firme, o aventureiro Rodrigo Fiúza, que seguia da nascente à foz em carro e caiaque, é recebido pelo franciscano. Bispo local e sumidade na região do Médio São Francisco, Dom Luiz Flávio Cappio recepciona e dá sua benção ao viajante, num gesto que tem se repetido com as tantas expedições engajadas na defesa do Velho Chico que passaram a fazer de Barra uma parada obrigatória. É setembro de 2006, acabo de chegar à cidade e começo a realizar minha missão por aqui: entender por que o tal padre tem mudado a história da cidade e do rio.
Pouco mais de um ano antes, em outubro de 2005, o próprio Frei Luiz - como gosta de ser chamado - era recebido no mesmo cais por 3 mil pessoas. Ele havia passado 11 dias em greve de fome em protesto contra o projeto do Governo Federal de retirar parte da água do rio São Francisco no intuito de interligá-lo a outras bacias do Nordeste. O episódio estampou manchetes no Brasil e no mundo, valendo ao padre até uma comparação, no prestigiado jornal inglês "The Economist", com Mahatma Gandhi por sua atitude de grande impacto e sem violência. "Antes de se levar água do rio para lugares distantes, é preciso revitalizá-lo", argumenta, na entrevista que me deu numa tarde de setembro. Frei Luiz reconhece que seu gesto foi certeiro: depois do clamor do Vaticano e da intervenção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o padre encerrou o jejum suicida quando ouviu que a prioridade de Lula passaria a ser a recuperação do rio. Graças também a uma liminar impetrada pelo Governo do Estado da Bahia, as obras da transposição estão suspensas desde então.
Barra poderia ser apenas mais um dos 500 municípios à beira do maior rio que nasce e deságua em terras brasileiras. Distante longínquos 670 quilômetros a oeste da capital Salvador, parece descansar diante do encontro das águas barrentas do rio São Francisco com as esverdeadas do rio Grande, o maior de seus 168 afluentes. Vive de agropecuária. Sob um sol de rachar, vi engenhos tocados por bois, um jegue aqui, um calango ali. Na área urbana, com um belo casario neoclássico do século 19, alguns de seus 23 mil habitantes assistem televisão na praça ou ouvem música (reggae é proibido por lei, "dá briga", me explicaram). O mercado à céu aberto vende desde carne de porco até rapadura, e os carros de som são os responsáveis pela divulgação de tudo, desde um sorteio de um Fiat Tempra ano 1993 até a grande atração da minha noite de sábado, um simplório circo com a apresentação da dançarina Gretchen.
Mas Barra é a cidade do Frei Luiz, e isso muda tudo. "Veja o livro de versos que estou fazendo sobre ele", diz Pedro Reis, o "Foguinho de Barra", como se auto-intitula um senhor negro de cabelos pintados de vermelho ao me abordar na rua. Durante a missa das seis da tarde, percebi beatas usando fotos do rosto de Frei Luiz como marcadores dos livros de cânticos. Joana Camandaroba, escritora local, 92 anos e 4 livros publicados, vai mais longe: "o Frei Luiz é um santo!". Ela conta que viveu a maior agonia de sua vida durante a greve de fome dele. Foi quando as igrejas de Barra ficaram lotadas durante as novenas, e centenas de fiéis de todo o Nordeste seguiram à cidade pernambucana de Cabrobó, escolhida pelo padre para seu martírio (por ser o ponto da tomada de água do eixo norte do projeto da transposição). Só de Aracaju (SE) chegaram 25 ônibus. Sete fiéis acompanharam o frei na abstinência de comida. E até o pai-de-santo de Barra, o respeitado artesão José Geraldo da Silva, o Gerard, chorou pelo padre.
Mobilizações como a que se viu durante o jejum de Frei Luiz são raras em Barra. Acontecem durante a Festa do Divino, com apresentação de marujada, em maio, e nos festejos de São João, em junho, um dos mais tradicionais do sertão. É quando a população urbana é duplicada durante o espetáculo pirotécnico dos buscapés de estouro. Eles são explodidos pelas centenas de barrenses que desfilam nos "fortes", blocos que simulam os conflitos da Guerra do Paraguai. "Barra foi a única cidade que não teve baixas entre os 100 soldados que mandou para a guerra", explica Joana Camandaroba.
"O rio São Francisco é a condição de vida para esse povo, e essa vida está ameaçada", diz Frei Luiz, em referência aos quase 12 milhões de brasileiros que vivem no entorno do São Francisco (cerca de 10% da população nacional). É fácil entender porque essa gente projetou nele a imagem de salvador da pátria, o associando a mitos como Padre Cícero ou Antônio Conselheiro. Nos seus sermões, Frei Luiz não se intimida ao discursar contra as condições de trabalho "infernais" das carvoarias, e ao estimular denúncias sobre as plantações de maconha da região, algo que já lhe rendeu ameaças de morte e a decisão de não mais viajar só.
O apoio unânime ao padre e à sua causa ficam ainda mais claros depois de se reparar em como o cotidiano de Barra está ligado ao rio. Num passeio de barco que faria com pescadores, vi homens jogando suas redes e tarrafas no rio, lavadeiras agachadas a esfregar roupas e louças, vacas e porcos bebendo água nas beiradas, homens lavando jegues e motos. No fim de semana, famílias inteiras e grupos de amigos transformariam o cenário dos arredores do porto em duas praias para banhos com música ao vivo e peladas de futebol. Apesar de barrentas, as águas também são usadas para beber e para irrigar plantações -- e muitas vezes são contaminadas pelos agrotóxicos das roças.
"Hoje têm cada vez menos peixes no rio, e eles estão menores", lamentou o pescador Givaldo Ramos, que tinha nas mãos um surubim, principal espécie da região, de 16 quilos. "Uns meses atrás, mais de 100 surubins passaram por aqui boiando, mortos. Uma tristeza", continuou. O morticínio foi atribuído ao derramamento de metais pesados como o zinco por uma indústria de Belo Horizonte. "Boa parte do esgoto doméstico e industrial da capital mineira deságua, pelo rio das Velhas, no São Francisco", explica a ambientalista Margi Moss, que tem feito com o marido Gérard uma expedição que analisa a qualidade da água de rios brasileiros. A constatação do "avançado grau de degradação" de parte dessa bacia foi percebida no projeto "Brasil das Águas", feito a bordo de avião anfíbio Talha-Mar, e exibida ao ar livre em uma praça de Barra, em outubro.
Durante a viagem de outro ecologista, Eduardo Pereira de Carvalho, em dezembro de 2005, outro problema foi flagrado. Ao navegar a bordo de uma inusitada embarcação feita com 2040 garrafas pet, Eduardo viu pescadores jogando redes em pleno período da piracema, quando pescar é proibido. Eis uma vantagem da militância de Frei Luiz e dessa onda de expedicionários do São Francisco: seus problemas estão se tornando públicos. O esgoto de Barra, por exemplo, é despejado no rio in natura, sem tratamento algum, algo que é quase uma regra entre as cidades ao longo de 2700 quilômetros -- o rio atravessa três estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco) e faz a divisa de outros dois (Sergipe e Alagoas), com quatro usinas hidrelétricas no percurso. Para piorar o quadro, quando lá estive, um incêndio na Serra da Canastra, em Minas, destruía 60% do parque que abriga a nascente do Velho Chico.
Das soluções previstas pelo projeto de revitalização, nenhuma interessa tanto a Barra quanto a recuperação da hidrovia do São Francisco. A cidade construiu seu rico passado por ser um importante entreposto da navegação pelo rio, que começou na metade do século 19 - em 1865 o inglês Sir Richard Francis Burton chegou a explorar, pioneiramente, o Velho Chico da nascente à foz. O trecho de 1,3 mil quilômetros entre Pirapora (MG) e Juazeiro (BA) se afamaria mais tarde pelas lendárias "gaiolas", barcos de passageiros a vapor que tinham carrancas nas proas. Foi na década de 1980 que os últimos barcos pararam de fazer essa rota, em função principalmente do assoreamento provocado em parte pelo desmatamento da caatinga nas margens. Barra se viu isolada. As estradas asfaltadas passavam longe e o dinheiro se esvaiu. Só quando o asfalto chegou, em 1997, é que a economia local começou a sair do marasmo.
"Triste é constatar, depois de peregrinar ao longo do rio inteiro, que sua foz chega fraquinha ao encontro com o oceano", atesta Frei Luiz, em seu escritório, após recusar convites para falar da questão da água em eventos no México e em Estocolmo ("meu foco é cuidar da gente do sertão", justifica). Ele conhece, como poucos, a realidade do rio que defende. Afinal, antes mesmo de seu grito maior, a polêmica greve de fome, ele tinha enfrentado uma outra saga memorável. Durante um ano, entre 4 de outubro de 1992 e 4 de outubro de 1993, Frei Luiz empreendeu a maior das peregrinações modernas ao longo de todo o rio: caminhou ("cerca de mil quilômetros", estima) e seguiu de carro ou barco na companhia de três fiéis desde a nascente até a foz.
A data do início e do fim da expedição fora escolhida a dedo: 4 de outubro é quando as águas de Barra lotam de embarcações de pescadores durante a procissão fluvial que comemora o aniversário da morte do padroeiro da cidade, São Francisco de Assis. Foi o santo italiano, um homem de posses que abriu mão de seus bens para se dedicar aos pobres, quem deu origem ao nome do rio (descoberto pelo explorador italiano Américo Vespúcio nessa mesma data, em 1501). A trajetória do rio e do santo, segundo Frei Luiz, tem tudo a ver. "O Velho Chico nasce rico nas serras de Minas e desvia para salvar o Nordeste pobre", compara, ele próprio um paulista de origem abastada que há 32 anos dedica seus dias aos mais simples. Curiosamente, 4 de outubro é quando nasceu também Frei Luiz, o homem que entrou para a história da cidade de Barra e do rio São Francisco.
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