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Revista Photo & Camera - Junho 2000


Onde as Luzes se Encontram



Texto e Fotos: David Santos Júnior


Fotografar a Chapada Diamantina parece à primeira vista uma tarefa fácil. A paisagem é belíssima, os locais, mesmo os de difícil acesso, podem ser alcançados com um pouco de determinação e ajuda de bons guias locais; a hospitalidade dos nativos não tem tamanho e mesmo se você levar uma tonelada de equipamentos é possível alugar animais e contratar carregadores. No entanto, deve-se tomar cuidado com uma das premissas básicas para uma boa foto: a fotometragem.

CHAPADA DIAMANTINA
Medir corretamente e conscientemente a luz aumentará a probabilidade de se fazer uma boa foto. As luzes da Chapada Diamantina são especiais, variam não só com as estações do ano mas também durante o dia. É comum ter em um único dia nuvens, sol, chuva, céu azul, arco-íris e pôr-do-sol. Ou seja, deve-se estar preparado para tudo, inclusive para não fazer nada!
Durante minha estadia em Lençóis (outubro de 1999 a abril de 2000) cheguei a ficar 11 dias consecutivos dentro de casa pois não parava de chover.

CAHOEIRA DA FUMAÇA
Se o interesse for nas cachoeiras, a melhor época é no verão (novembro a março), na estação ds águas. Existem muitas cachoeiras que só seguram água quando está chovendo. A mais famosa é a Cachoeira da Fumaça (342m de altura). E mesmo assim se ficar uma semana sem chover o volume de água baixa rapidamente. Outra dificuldade é que a maioria das cachoeiras está voltada para o leste, a melhor luz é pela manhã. Normalmente neste horário o céu está coberto por nuvens.

Para uma boa foto da Cachoeira da Fumaça além de técnica, equipamento e disposição para buscar o melhor ângulo (pode levar de 1 a 3 dias de caminhada) é necessário o alinhamento natural de vários eventos que não dependem do fotógrafo. Entre os anos de 1995 e 1998 fiz expedições curtas (no máximo 20 dias) durante os meses de janeiro e julho e em nenhuma delas encontrei água na cachoeira. Comecei a pensar que era um assunto pessoal, mas depois compreendi que não estava na hora de apreciar tamanha beleza. No ano de 1999 e no início de 2000, vi e fotografei a Fumaça com diferentes volumes de água, com chuva e com sol, de cima, pela frente, por baixo e pela fenda. Foi um trabalho de perseverança e muito esforço físico. Na última e mais proveitosa expedição saí do Vale do Capão às 7 horas da manhã com 15Kg nas costas acompanhado de meu guia João do Capão. Subimos até o Gerais da Fumaça debaixo de uma garoa fina e pegamos a trilha do 21 e Palmital. Depois de 3h de caminhada estávamos de frente para a Cachoeira. O tempo melhorou um pouco , montei o tripé e fiquei esperando a luz. Percebi que o céu dificilmente ficaria azul então procurei explorar os pontos luminosos da cena.

Assim quando o sol iluminou uma parte da vegetaçaão fiz a fotometragem no modo "center-weighted " e cliquei.
Logo depois o tempo fechou de vez e caiu o maior temporal. Andamos por quase uma hora debaixo da chuva até que o sol voltou a brilhar justamente quando estávamos de frente para a Chachoeira do Palmital. Verde exuberante, polarização máxima, uma grande foto. Era o que eu queria ter encontrado na Fumaça. Mas nem tudo sai como desejo. Aprendi a aceitar a luz que me é dada e fazer o máximo proveito dela, pois não sei se vou poder esperar ou voltar outro dia e, mesmo que volte não será a mesma coisa, pode ser até melhor, mas nunca igual.

No caminho da Cachoeira do Palmital para a Toca da Fumaça fomos castigados por uma forte tempestade. O rio subiu rápido e logo depois da chegada na toca (por volta das 17h) presenciamos uma tromba d'água. Foi impressionante. Por incrível que pareça, meu equipamento estava intacto e totalmente seco. A mochila Lowepro Photo Trekker AW foi bastante eficiente. Coloquei a proteção para chuva (já vem com a mochila) e por cima uma capa de chuva tipo poncho. A toca estava cheia de gente, então acampamos numa barraca e tome chuva a noite inteira. No dia seguinte veio a recompensa. O dia amanheceu lindo, com céu azul.
Segui então para a Cachoeira da Fumaça por baixo e no caminho fotografei um trecho do rio. A condição de luz estava bastante peculiar e de difícil fotometragem.

Explorei os pontos iluminados por uma luz lateral que invadia a mata. Fotometrei no modo "spot" em cima dos musgos e fiz uma super exposição de 1/4. Ainda consegui chegar a tempo de fotografar a cachoeira de baixo e lateralmente durante a subida da fenda. Foram os dias que mais suei a camisa, mas valeu. As luzes da Chapada Diamantina vão mais além, é um desafio para o fotógrafo da natureza.

FLOR NA TRILHA DO CACHOEIRÃO
Para conseguir esta foto tive que colocar em prática toda minha calma, foi um verdadeiro exercício de paciência e perseverança. Estas qualidades são fundamentais quando se pretende fotografar a natureza sem uso de flash, e principalmente sem remover plantas e animais para um estúdio. Neste dia eu estava retornando do Vale do Cachoeirão com a equipe do Araquém Alcântara e resolvi adiantar o passo para curtir a trilha com mais tranquilidade e também para ver se aparecia algum animal. Passei por várias flores e me encantei com a simplicidade das formas de uma especial.

É um pendão fino que se ergue uns 40cm do solo com uma flor na ponta. Fiquei pensando em como fotografar já que seria impossível armar o tripé. O jeito foi escolher uma planta que estava na beira da trilha., deitar no chão e analisar as possibilidaes. A condição de luz estava mudando a cada segundo, pois o céu estava cheio de nuvens e ventava bastante. Num momento a planta toda estava iluminada, noutro só o pendão e em outro só a flor, mas ela não parava "quieta"! O vento é uma grande dificuldade para a foto de flores no habitat natural. Decidi optar por um contra luz e comecei a pedir para as forças da natureza se alinharem por uma fração de segundo (1/15 para ser mais exato).

Fiz a fotometragem na pétala roxa, ¼ de subexposição e esperei a nuvem passar, a luz incidiu por traz da flor e um pouco nos botões, o vento parou e aquela mutuca chata saiu dos meus ouvidos. Pronto foi só clicar (fiz um "bracketing" com um ponto abaixo e um ponto acima) e agradeci por aquele segundo mágico que me foi dado pela Mãe Natureza. A flor se tornou na foto um "spot" de luz no meio da mata.

CASA DO SEU EDUARDO
Quando cheguei na casa do Seu Eduardo depois de longas horas de caminhada pelo Vale do Pati queria mais era ficar ouvindo as estórias engraçadas que ele tem para contar. Mas de repente me desgarrei do grupo e fui até a cozinha. Sempre gosto de ver a cozinha das casas da roça. Elas são normalmente escuras, iluminadas pela chama do fogão a lenha e algumas frestas no telhado e encerram os segredos das mulheres.

Quando entrei na cozinha meu coração disparou pois senti uma grande foto. A mulher e a filha do Seu Eduardo estavam cozinhando e a cozinha estava todo cheia de fumaça e eu vi aqueles fachos de luz entrando pelo telhado. Pedi gentilmente para fazer a foto e também para filha do Seu Eduardo ficar na janela para compor melhor a cena e para não "estourar" a luz. Armei o tripé num canto espremido entre a parede e a porta, medi a luz na posição "matrix" da camera e fiz uma subexposição de ½ stop. Como o ambiente estava muito escuro a leitura do fotômetro iria produzir uma imagem muito iluminada, correndo o risco de se perder os raios de luz do telhado. A exposição foi de 1 segundo com abertura f/16.

IGEJA NOSSO SENHOR DOS PASSOS
O resultado de um contra luz é de difícil previsão. E é justamente isso que me atrai. Imagino, durante a exposição, como ficará a foto. As vezes chego perto, mas as vezes erro longe o resultado, mas sempre as surpresas são gratificantes. Neste caso utilizei a técnica de respirar fundo e deixar me encantar com a cena. Fui buscando o melhor ângulo até me posicionar lateralmente a Igreja.

As lâmpadas deram um toque especial a foto e pude ver isto no momento do clic. Escolhi o foco principal no Lampião e fiz a fotometragem diretamente no sol. Foi a conta da camera: velocidade de disparo 1/8000 segundo. O polarizador reduziu o efeito de "flair" e aumentou a dramaticidade da foto. A lente Nikkor 70-210mm 4.0-5.6 apesar de não ser luminosa, para este tipo de situação teve um ótimo desempenho. Aí vai uma dica: não se desespere se você não possuir lentes luminosas. Cada lente possui um máximo rendimento em determinadas situações, e é isto que deve ser explorado.

CACHOEIRA DO RAMALHO
A Cachoeira do Ramalho é uma queda d'água de mais de 100 metros de altura e fica a aproximadamente duas horas de caminhada da cidade de Andaraí. Como a Fumaça ela só possui grandes volumes de água quando chove e a melhor hora para fotografar é antes das dez. Só fiquei sabendo disto tudo depois que cheguei na cachoeira!! Os guias normalmente não entendem o desespero do fotógrafo em querer sair cedo. Foi me dito que a cachoeira teria bastante água e que o sol batia até a uma da tarde.

Chegamos por volta das onze horas e o sol estava iluminando menos de um terço da água. Pensei: não adianta chorar o leite derramado. Tratei logo de preparar o equipamento e comecei a fotografar. Como a quantidade de água era pequena resolvi congelar a imagem e fiz a fotometragem no modo "center-weighted" apontado para a parte iluminada da água. Em outras situações eu faria alguma correção na exposição pois a leitura da luz diretamente na água produz uma imagem subexposta. Neste caso a subexposição foi proposital e o resultado bastante interessante. Vale a pena lembrar que seu relógio deve estar uma hora adiantado em relação ao relógio do guia!

DONA LIÓ
Retratar o povo simples do sertão é uma experiência fantástica de vida. Meus problemas se tornam pequenos e percebo que reclamo de barriga cheia. Além de ser uma fonte inesgotável para o fotógrafo a interação no momento do retrato é mágica. Pela lente chego através dos olhos n'alma de cada velhinha e velhinho e procuro registrar numa fração de segundo o sentimento mais puro. E tudo isto pode estar bem ao seu lado!

Dona Lió é uma simpática velhinha que mora ao lado de minha casa em Lençóis. Durante a reforma de minha casa o pedreiro quebrou algumas telhas da casa dela e fui ver o estrago. Quando entrei na copa e vi um pedaço de vidro no teto já imaginei toda a cena e perguntei quando o sol entrava. Foi só voltar num dia e depois daquele café maravilhoso coloquei o tripé no nível do chão e fiz a fotometragem no meu braço iluminado pelo sol que entrava através do vidro e 1/f stop de superexposição. Senti um frio na barriga no momento do clic e isto me deu a certeza de estar fazendo a coisa certa. É fundamental interagir sinceramente com quem se pretende fotografar sem aquela história de roubar a imagem e depois ir embora. E o mais importante respeitar o direito da pessoa de não querer ser fotografada.

POÇO ENCANTADO
A primeira vez que vi o Poço Encantado as lágrimas correram tamanha a emoção que senti. E tenho certeza de que este tipo de contemplação contribui muito para uma boa foto de natureza, faz parte do processo criativo e é a fonte inspiradora primordial. Depois vem a técnica e o equipamento. Entre os meses de abril e setembro o sol entra por uma fenda e ilumina uma parte do Poço Encantando.

É um fenômeno transcendental que permite a quem estiver com a mente aberta experimentar um contato divino com uma das mais belas paisagens do Brasil. Esta foto foi feita em setembro com abertura f/22 e 45 segundos de exposição. Para conseguir este tempo utilizei o "timer" do Disparador MC20. O polarizador neste caso foi utilizado ao contrário.

É isto mesmo, despolarizei a luz para realçar o reflexo da fenda, como a água é translúcida não ficou comprometida a cor azul do fundo. Uma dica: o Poço Encantado é bastante visitado em todas as épocas do ano principalmente em junho ( São João) e julho (férias) e as pessoas utilizam muito o flash que pode comprometer sua foto. Por isso chegue antes dos turistas e converse com os Guardiões do Poço Encantado Miguel e Ailton, com certeza eles vão dar a maior força. Só não peça para nadar pois o banho está proibido desde 1990.

CRAVADA
Para fotografar o arco-íris apliquei uma dica que recebi do mestre Araquém Alcântara: fazer uma subexposição. Além disso acrescentei o recurso de despolarizar a luz. Como o arco-íris é resultado da decomposição da luz branca pelas gotas de água que funcionam como prismas se você polarizar o arco-íris desaparece. Fiz a fotometragem no modo "matrix" e uma subexposição de 1 ½ stop com abertura f/8.

MORRO DO PAI INÁCIO
Os místicos consideram o Morro do Pai Inácio como uma das montanhas sagradas do Brasil. E isto pode ser sentido por aqueles que se deslumbram com o visual de cima do morro durante o Pôr-do-sol. Diferente das cachoeiras, as montanhas mais famosas da Chapada Diamantina (Monte Tabor, Morro do Camelo, Três Irmãos, Serra dos Brejões e Morro do Pai Inácio) são ilumidadas no período da tarde e no poente as paredes ficam avermelhadas. É um espetáculo. Esta foto do Morro do Pai Inácio foi feita um dia antes da lua cheia de março de 2000 no final da tarde. A luz foi medida na rocha com o fotômetro no modo "center-weighted" com polarização máxima. A condição de luz estava tão perfeita que não foi necessário "bracketing" nem compensação na exposição.

RAIO DE SOL
Em dias nublados também é possível obter boas imagens principalmente de plantas. Neste caso a dificuldade maior foi o enquadramento pois nas bromélias deve ser valorizado a forma geométrica e para tanto tive de ficar de cócoras em cima de uma pedra. Existiam outras bromélias em locais mais fáceis, que permitiriam armar o tripé, mas esta tinha um pequeno detalhe que para mim era o mais importante, a flor branca bem no centro. Usei o filtro "enhancing" para realçar a coloração vermelha e a fotometragem foi feita no modo "matrix" pois a luz em dias nublados é homogênea. A abertura usada (f/16) exigiu uma baixa velocidade (1/15 segundo) e neste momento vale a firmeza da mão quando se está numa posição difícil. O MB10 ajuda bastante pois aumenta a "pegada" e oferece a opção de disparo vertical.

NATIVOS DA CHAPADA
A minha intenção quando fui para o Serrano era fotografar os Nativos da Chapada fazendo um rappel com a lua cheia compondo o fundo. Mas o que me interessou mesmo foi o lado oposto, o azul do início da noite estava profundo e mudei rapidamente os planos. Armei o tripé com a 50mm na abertura 1.8 e fiz uma exposição de 2 segundos.

A medida da luz é importantíssima nesta situação. O filme positivo possui uma latitude baixa, não aceita erros de fotometragem. A leitura da luz não pode ser feita exclusivamente no ponto mais claro da cena pois corre-se o risco de uma subexposição. Eu fiz a fotometragem no modo "center-weighted" apontando o centro do quadro para metade da parte mais iluminada e metade na transição para a parte mais escura do céu azul, sem me importar com a rocha e os rapeleiros. Como a exposição foi longa pedi para eles travarem a respiração e não se movimentarem. O resultado me agradou bastante, até as estrelas foram registradas.

GRUTA DOS IMPOSSÍVEIS
A Gruta dos Impossíveis como o próprio nome diz é de difícil acesso. A boca fica em uma dolina de 70 metros de altura e para chegar lá é necessário passar por buracos estreitos, descer escorado em troncos de árvores e escadas pouco confiáveis. Na entrada existe um lago de águas transparentes e no fundo areia movediça. Deve-se tomar muito cuidado pois o risco de ficar atolado até o pescoço é grande. Mas a visão de dentro compensa.

O lago reflete a vegetação e o teto da gruta formando uma bela imagem que só pode ser apreciada na época seca. Quando chove o rio subterrâneo que forma a gruta transborda e enche quase toda a dolina, formando um imenso lago. A paisagem remete aos tempos da pré-história. Eu particularmente tenho uma história com o lugar. Foi lá que perdi um grande amigo no final do ano passado e desde então não havia retornado para fotografar. Já tinha algumas imagens do reflexo da boca mas acreditando que poderia ficar melhor, resolvi voltar em março para uma nova tentativa.

O povo do local ainda estava abalado com o acidente. O garoto que me acompanhou estava morrendo de medo e nem queria descer a dolina, mas eu insisti pois estava decidido a fazer uma homenagem a meu amigo Douglas Nunes. Quando cheguei na beira do precipício tomei um susto pois estava tudo alagado e mesmo assim desci pela borda e cheguei de frente para a boca. Parei por alguns instantes em respeito e fiz uma oração. Depois procurei um ângulo que mostrasse a dor da perda e ao mesmo tempo a esperança de uma nova vida. Encontrei tudo isto com as plantas aquáticas verdes e vivas e as estalactites do teto mórbido da gruta. Fiz a fotometragem no modo "spot" nas folhas da Ninfea e cliquei com abertura f/8 e velocidade 1/8 segundo na mão.

É isto, a Chapada Diamantina é um excelente laboratório para quem deseja interagir com as mais variadas condições de luz.



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