"... Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado. Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra. Fotografei a existência dela...
...Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa. Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre..."
Manoel de Barros (O Fotógrafo - Ensaios Fotográficos - Ed. Record, 2000)
O livro de Manoel de Barros chegou as minhas mãos através de uma amiga. Fui presenteado após um bate papo fotográfico onde coloquei minha preocupação com os rumos da fotografia, mais precisamente a falta de poesia na fotografia.
Fotografia digital, DVD, pixels, resolução, softwares, internet, tudo isto e muito mais faz parte do vocabulário atual e é muito bom, afinal é a história seguindo seu rumo, é a evolução natural de equipamentos e materiais. Porém o processo criativo é insubstituível por que é inerente apenas ao ser humano, é resultado de uma ação mental derivativa de experiências acumuladas ao longo do tempo e varia de indivíduo para indivíduo.
Na minha curta trajetória na fotografia um grande despertar aconteceu quando comecei a procurar fotografar o perfume e não mais o jasmim, e existência e não apenas a lesma e o sobre sem me preocupar com a paisagem velha ou a casa. Nem sempre isto é possível, mas as vezes ocorre e não é mera obra do acaso e sim o resultado de muito trabalho, faz parte do processo criativo. Procuro fotografar com o lado direito do cérebro, esquecer por alguns instantes toda minha racionalidade, minhas regras internas, minhas balizas estabelecidas no lado esquerdo.
Deixar o lado direito do cérebro assumir durante o ato fotográfico é permitir que a mente comande ações sem se preocupar muito com o f/stop e a velocidade, é ser autêntico, ter revelado um estilo, viajar livremente sem aditivos químicos, é se deixar encantar. Para mim é como elevar o espírito a um nível superior de contemplação. Neste momento eu estou livre para ser eu mesmo, com a mente aberta para novos ângulos que havia desprezado anteriormente, enfim, em harmonia com o meio. O resultado, quando isto acontece, sempre me agrada. Busco aumentar a freqüência destes momentos mágicos. Assim o espectador pode num olhar compartilhar as mesmas emoções que vivi e que são tão difíceis de descrever.
Em minhas andanças pelo sertão baiano descobri uma fonte inesgotável de inspiração: pessoas idosas. No início foi difícil estabelecer um laço sincero. Questionei. Eu com meus 34 anos como posso transpor o processo criativo referido na interação com um velho de 106 anos? Precisei aprender como superar a diferença de idade e todas suas implicações. Aceitar o direito da pessoa de não querer tirar retrato, respeitar seu desejo em se vestir com a melhor roupa, ter ouvidos para compartilhar suas conquistas e perdas, prometer cópias e enviá-las, ser calmo e paciente.
Só depois de incorporar todas estas atitudes pude ser premiado com imagens maravilhosas de pessoas incríveis as quais me mostraram meu real tamanho e sou muito grato por isso.
David Santos Jr | Caros Amigos - O Processo Criativo na Natureza
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