O fotógrafo David Santos Júnior, botânico que virou fotógrafo de natureza, especializado em flores (veja matéria da edição 68, pág. 70), esconde um lado agitado que não tem nada a ver com a calmaria de colocar uma bromélia em foco.
Ele também se tornou um especialista em imagens de esportes de ação. E põe ação nisso, já que ele acompanha um "maluco" que leva o nome de batismo de Luiz Henrique Tapajós Antunes Santos, mas atende como "Sabiá".
Sabiá é um praticante de B.A.S.E. Jump, que em resumo é saltar de pára-quedas de lugares altos, como arranha-céus, penhascos, torres, pontes e coisas do gênero. Avião? Nem pensar. "Este tipo de esporte é pura adrenalina", conta Santos Júnior. Segundo ele a "doença" pega, pois já fez coisas que jamais imaginaria, como saltar de um avião com um pára-quedas para sentir um pouco da emoção vivida pelo radical Sabiá. "E acompanhar este tipo de atleta não é fácil. O fotógrafo precisa estar em boa forma física. É até uma questão de sobrevivência", diz Santos Júnior.
Para fotografar o salto de Sabiá na Serra dos Brejões, na Chapada Diamantina (BA), Santos Júnior conta que sofreu um bocado, pois o acesso ao local é bastante difícil. Do ponto onde Sabiá saltou até o chão são cerca de 300 metros. "Estas aventuras acontecem de repente, em datas e horários incertos, pois dependem das condições climáticas e de patrocinadores para o atleta, que precisa de apoio financeiro e logístico", afirma o fotógrafo. Além de fotografar o salto de Sabiá, Santos Júnior foi convidado a registrar também uma descida inédita de rapel. Para chegar ao topo da montanha foram 5 horas de caminhada. O grupo seguiu guiado apenas pelo rumo, pois não existe trilha.
Passaram por locais difíceis e perigosos como o Brejo das Cobras e a Toca da Onça. Os praticantes do rapel carregaram um peso enorme. Só a corda, com 400 metros, pesa mais de 35 quilos. O fotógrafo levou boa parte de seu equipamento mais água e alimentação para passar o dia. Após toda a preparação a turma do rapel desceu, Sabiá saltou de pára-quedas e Santos Júnior fotografou. Mas ... sobrou no topo da montanha. Ele e o guia João do Capão começaram então a desmontar todas as ancoragens do pessoal do rapel, mandaram para baixo a corda de 400 metros e tiveram que levar outras nas costas. Iniciaram o retorno após o pôr-do-sol.
Por sorte a lua estava cheia e iluminou o caminho de volta. Eles apenas sabiam a direção e, depois de muito andar, chegaram tarde da noite no local onde o grupo estava terminando de comer um belo churrasco... "É assim. Para fazer boas fotos tem de ralar, ser o primeiro a chegar e o último a sair", conforma-se o fotógrafo. Santos Júnior diz que costuma adequar a quantidade de equipamento às necessidades específicas. Nada de peso extra. A sugestão é poupar energia para a horas "H" do disparo. "Costumo levar duas câmeras, uma com uma lente grande angular (20-35mm f/2.8) e outra com uma zoom (80-200mm f/2.8). Filtro só polarizador e mesmo assim quando houver luz suficiente", ensina. Uma carga de pilhas novas para ambas as câmeras, filmes em abundância e tripé completam o equipamento.
DOMINAR A CÂMERA
Santos Júnior lembra que diferentemente de uma paisagem imóvel, os esportes de ação envolvem movimento. Em segundos tudo acontece. Portanto, o tempo para se fazer a foto é curto. O fotógrafo deve ser ágil, rápido e capaz de prever deslocamentos. "Isto tudo vem com treino e experiência. Mas para os iniciantes, um bom começo é estudar a fundo o manual da câmera fotográfica. Se for uma reflex moderna cheia de programas e opções, é fundamental dominar todas as funções de olhos fechados", afirma. Ele diz que em determinadas situações, o fotógrafo tem que tomar decisões em um tempo curto e não pode desperdiçar este precioso tempo com dúvidas sobre a regulagem da câmera.
SALTOS MUITO RADICAIS ÀS MARGENS DA LEI
Fazer vista grossa para alguns aspectos legais é inevitável, diz Santos Júnior. Saltos de pontes, prédios e espaços públicos nem sempre são tolerados pelas autoridades. Nestas situações o tempo é ainda mais crítico. Além de ser rápido na hora de registrar o momento, o fotógrafo tem que agir também na corrida caso apareça algum policial. Durante um salto de Sabiá de um prédio na Barra da Tijuca (RJ), no exato momento que o pára-quedas abriu, o barulho foi tanto que despertou a cachorrada da vizinhança, conta Santos Júnior.
Eram 6h da manhã, os cachorros latindo e o fotógrafo com o equipamento armado: tripé com uma Nikon N90S com MB10, lente zoom 70-210mm f/4-f/5.6. Na mão esquerda, o disparador da N90S e na mão direita, uma Nikon F5 com zoom 20-35mmf/2.8. Ele disparou as duas ao mesmo tempo no modo "continuos high-speed" e pensava: se a polícia aparecer como é que eu vou sair correndo com todo esse equipamento montado?" O salto foi bem rápido e assim que Sabiá chegou ao solo, ele jogou tudo dentro da bolsa e saiu no pinote. Santos Júnior ressalta que fotógrafo de esportes de ação deve estar constantemente preocupado com a segurança e jamais subestimar perigos. "Quando vou fotografar esportes em beiradas de precipícios, cachoeiras, prédios e pontes, sempre fico com uma cadeirinha e preso com corda e mosquetão em pelo menos dois pontos de ancoragem", ensina. Ele procura ainda conhecer as técnicas utilizadas assim como o equipamento dos atletas. "O importante é trabalhar com atletas responsáveis", diz.
UM OLHO NO PEIXE
Ao trabalhar com teleobjetivas Santos Júnior procura ficar com os dois olhos bem abertos. Um no peixe (visor da câmera) e outro no gato (objeto). Faz também um pré-foco no local mais provável que o atleta irá passar. Se ocorerem vários saltos, como no caso do Bungee Jump, ele recomenda que o fotógrafo se posicione em locais diferentes a cada salto. Por último, a interação com o assunto pode culminar como o próprio fotógrafo praticando um esporte de ação. "Sentir no corpo a adrenalina fervendo pode ajudar a entender um pouco a alegria dos atletas de esportes de ação, só depende da coragem de cada um", afirma Santos Júnior. Ele diz que está vencendo aos poucos as barreiras e já pratica alguns dos esportes que fotografa. Mas nada de saltar de prédios ou penhascos no vazio, como o Sabiá. "Este é apenas para atletas profissionais", confessa.
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